quarta-feira, 7 de abril de 2010

Poema do homem só.

Sós,
irremediavelmente sós,
como um astro perdido que arrefece.
Todos passam por nós
e ninguém nos conhece.

Os que passam e os que ficam.
Todos se desconhecem.
Os astros nada explicam:
Arrefecem.

Nesta envolvente solidão compacta,
quer se grite ou não se grite,
nenhum dar-se de outro refracta,
nenhum ser nós se transmite.

Quem sente o meu sentimento
sou eu só, e mais ninguém.
Quem sofre o meu sofrimento
sou eu só, e mais ninguém.
Quem estremece este meu estremecimento
sou eu só, e mais ninguém.

Dão-se os lábios, dão-se os braços
dão-se os olhos, dão-se os dedos
(...)
dão se as noites, dão-se os dias,
dão-se aflitivas esmolas,
(...)
dão-se os nervos, dá-se a vida,
dá-se o sangue gota a gota,
como uma braçada rota
dá-se tudo e nada fica.

Mas este íntimo secreto
que no silêncio concreto,
este oferecer-se de dentro
num esgotamento completo,
este ser-se sem disfarçe,
virgem de mal e de bem,
este dar-se, este entregar-se,
descobrir-se, desflorar-se,
é nosso e de mais ninguém.


Rômulo de Carvalho

3 comentários:

  1. :OO
    Que liiindo.
    L-I-N-D-O.
    Nunca tinha visto, mas amei, mesmo mesmo^^

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  2. By: meu livro de português rs. O mais interessante é que quase ninguém concordou com a mensagem em sala de aula, disseram que ele era egoísta, exagerado.. Eu achei muito real ^^

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  3. Sério?
    Bem, algumas pessoas tem mania de achar egoísmo algumas atitudes, mas agem de tal maneira... Pode ser esse o caso de alguns, e alguns devem realmente altruístas...
    Bem, eu já dei minha opinião...

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